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A RELAÇÃO DO INDIVÍDUO COM O CONHECIMENTO NA SOCIEDADE MODERNA CONECTADA SOB O FOCO DA TEORIA DA COMPLEXIDADE DE MORIN - Artigo Cientifico

A RELAÇÃO DO INDIVÍDUO COM O CONHECIMENTO NA SOCIEDADE MODERNA CONECTADA SOB O FOCO DA TEORIA DA COMPLEXIDADE DE MORIN The relationship of the individual with knowledge in modern society connected under the focus of Morin's complexity theory TRINDADE, Robson. Resumo O presente artigo traz uma análise conceitual da relação entre o ser humano e o conhecimento no âmbito da sociedade moderna, altamente conectada e visivelmente individualista. O objetivo foi identificar as teorias que tratam da relação do homem com o conhecimento e de sua apropriação, passando pelos próprios conceitos do conectivismo e refletindo à luz da teoria da complexidade de Edgar Morin. Finalmente, diante de um cenário construído, apresenta-se a aprendizagem ubíqua como uma das mais relevantes estratégias para começar um processo de ressignificação da aprendizagem e da relação do estudante contemporâneo com o conhecimento. Palavras-chave: Conectivismo; Autopoiese; Aprendizagem Ubíqua; Conhecimento. ABSTRACT This paper presents a conceptual analysis of the relationship between human beings and knowledge in the context of modern, highly connected and visibly individualistic society. The objective was to identify the theories that deal with man's relationship with knowledge and its appropriation, passing through the very concepts of connectivism and reflecting in the light of Edgar Morin's theory of complexity. Finally, in view of a constructed scenario, ubiquitous learning is presented as one of the most relevant strategies to begin a process of reinterpretation of learning and of the contemporary student's relationship with knowledge. Keywords: Connectivism; Autopoiesis; Ubiquitous Learning; Knowledge. INTRODUÇÃO As relações que o ser humano constrói com o mundo e com seus semelhantes é dotada de grande significado. A organização do conhecimento e a interação entre as pessoas, compartilhando o aprendizado com seus descendentes, é a base para a construção da cultura. Quando retrata simbolicamente suas experiências, o indivíduo recria o mundo a partir de suas necessidades e com base em seu próprio ponto de vista, traduzindo uma situação em informação, ou conhecimento. E o conhecimento, por sua vez, faz parte da existência humana desde os primórdios, sendo algo inerente à humanidade. Com o passar das eras, no entanto, a sociedade evoluiu de forma significativa, em um processo que se tornou ainda mais rápido e facilmente observável nas últimas décadas. As tecnologias de informação e comunicação se desenvolveram de forma expressiva e impactaram a humanidade em todas as áreas, especialmente na educacional e nas relações pessoais. Já na terceira década do Século XXI, a sociedade se encontra altamente conectada através das ferramentas tecnológicas. Um novo mundo, ou um novo meio digital surgiu e existe agora uma necessidade urgente de conceber uma adaptação de pessoas de diferentes gerações a essa realidade que mistura o que é real e o que é virtual. As mídias sociais fazem parte do dia a dia da maior parte das pessoas, em todas as partes do mundo. As informações fluem, descontroladas, em tempo real e se espalham rapidamente, mesmo que sejam incorretas. Esse cenário se mostra ainda mais desafiador diante do processo de compartimentação do conhecimento, isolando diferentes áreas da ciência em sistemas educacionais que não favorecem a disseminação do conhecimento e a construção de uma aprendizagem colaborativa, necessária em uma realidade amplamente conectada. Nesse contexto, é altamente relevante discutir novos métodos de ensino e novos pontos de vista que tornem possível lidar com as crises que surgem na contemporaneidade. Ao mesmo tempo em que se faz necessário promover uma conexão genuína do sujeito com sua comunidade, é preciso religar os saberes humanos para que sejam vistos como um sistema complexo que age sobre o meio e sobre o indivíduo (MORIN, 2015). Assim, o presente artigo traz os conceitos de autopoiese (MATURANA e VARELA, 1997) para explicar como o conhecimento é construído a partir da relação entre o indivíduo e o meio; a teoria do Conectivismo (SIEMENS, 2004) para caracterizar a sociedade moderna e sua conexão através das ferramentas tecnolígicas; a teoria da complexidade (MORIN, 2003, 2005, 2007, 2015) para ressaltar a necessidade de reestruturar o conhecimento através de um alhar mais amplo; e a aprendizagem ubíqua (SANTAELLA, 2013) como possibilidade de ressignificação do processo de apropriação do conhecimento nos dias de hoje. O CONCEITO DE AUTOPOIESE E SUA RELAÇÃO COM O CONHECIMENTO O conhecimento é inerente ao ser humano e algo do qual não se pode escapar. É possível dizer que o indivíduo está destina à assimilação constante de diferentes tipos e manifestações de conhecimento, influenciadas, por exemplo, por fatores ambientais que podem, ou não, fugir ao controle desse indivíduo. Assim, as relações construídas com o meio em um constante processo de aprendizagem, autorregulação e interação, serão determinantes no que diz respeito ao desenvolvimento do homem. Para discutir de forma mais profunda essa interação que existe entre o ser humano e o meio no qual se encontra inserido, Maturana e Varela (1997) trazem o conceito de autopoiese – do grego: auto = “próprio” e poiesis = “criação” –, que trata da capacidade dos seres vivos de produzirem a si mesmos. Os autores explicam que todo ser vivo compartilha do traço característico que é a possibilidade de se produzirem materialmente de forma constante, o que chamam de organização autopoiética. Deste modo, o ser vivo pode ser compreendido como uma máquina autopoiética, com a habilidade de criar e especificar sua própria organização enquanto produzem seus próprios componentes, motivados por contínuas condições de perturbação e pela necessidade de compensar essas perturbações (MOREIRA, 2004). Analisando e discutindo aspectos do sistema nervoso, Maturana e Varela (1997) seguem formulando o conceito de “ser vivo” enquanto sistema de organização circular, dando destaque à questão da autonomia e considerando cada indivíduo como um sistema que, fechado, é capaz de se auto-organizar. Com isso, o processo de construção da identidade pode, também, ser compreendido como um fenômeno circular que parte de uma rede de produções metabólicas que é responsável por viabilizar a existência da própria rede. Compreendendo essa circularidade como elemento fundamental e capacidade única dos seres vivos, em nível celular, a autopoiese designa a organização mínima do ser vivo. É importante ter em mente, porém, que apesar de o ser humano ser constituído e determinado por uma estrutura biológica, as determinações que partem dessa estrutura não devem ser consideradas em um contexto de reducionismo biológico, uma vez que o meio é capaz de interferir na interação do ser com suas próprias estruturas. O homem, independentemente de suas limitações, passa a vida em um processo constante de autoconstrução e a forma com que cada um interage com o meio também será estabelecida a partir de uma regulação circular. Nesse contexto, o homem não é um agente que descobre o mundo à sua volta, mas alguém que o constitui. Então, ao mesmo tempo em que o meio exerce uma ação sobre o indivíduo, o indivíduo também exerce uma ação sobre o meio, não havendo sobreposição de um em relação ao outro. A autopoiese, portanto, não considera o meio como elemento determinante sobre uma estrutura ontogênica, mas sim como algo que participa do seu processo de transformação (MATURANA e VARELA, 1997). Partindo desse entendimento, Varela, Thompson e Rosch (1991) trazem, pela primeira vez, os termos “enação” e “enativo”, em oposição às abordagens cognitivistas dominantes na época. Essa teoria surge para trabalhar melhor a co-definição que existe entre um sistema autônomo e seu meio, compreendendo o processo cognitivo como um fenômeno que será fortemente influenciado pela percepção do indivíduo, a partir de sua estrutura sensório-motora. Isso significa que as características biológicas de cada um são determinantes no processo de aprendizagem dos que existe no mundo, indo muito além de uma simples representação de símbolos que lhes foram apresentados. Os autores destacam que os processos sensoriais e motores, as diferentes formas de percepção e as inúmeras possibilidades de ação, não podem ser separados da cognição, uma vez que evoluem juntas. A teoria da enação, para Varela (1994) não tem a intenção de estabelecer um sentido, no qual o conhecimento existe no mundo, independente de qualquer subjetividade. A ideia é trazer o sentido de ambiguidade e multiplicidade, não caindo no reducionismo do ambiente enquanto mundo com propriedades preestabelecidas ou do sujeito como criador arbitrário dos sentidos. Assim, a cognição é definida como uma atribuição de sentidos que parte do ciclo estabelecido entre ação e percepção, gerando um novo mundo de significados específicos para alguém, com base em um ponto de vista próprio. Finalmente, o autor explica que o ser humano, enquanto sistema autônomo, existe a partir do seu processo de autoprodução. Deste modo, o ambiente, que não é dotado desse mesmo processo, não pode ser tratado como elemento preexistente que deve ser descoberto e conhecido, fazendo com que o ato de conhecer esteja mais próximo de construir um mundo do que de encontrar uma representação dele. Esses conceitos, aliados a diversas pesquisas em diversas áreas como biologia, ciências cognitivas, sociologia, cibernética, entre muitas outras, culminaram em uma mudança de paradigma que pode ser chamada de giro ontológico da modernidade. Diante dos avanços da tecnologia a partir do final do Século XX, novas formas de pensamento e novos espaços de convivência e vida social foram surgindo, criando meios e estabelecendo diferentes formas de interação que certamente influenciariam o processo de construção do conhecimento, a aprendizagem, as relações humanas e os ciclos que fazem parte do ser vivo. A TEORIA DO CONECTIVISMO Entrando na terceira década do Século XXI, é inegável que o mundo se encontra diante de uma nova organização da sociedade, a conectada. Essa conexão, como comenta Filatro (2003) consiste, de forma bem simples, na aproximação de pessoas que podem estar em diferentes lugares a partir de ferramentas de comunicação que permitem a interação e a colaboração entre elas. O novo mundo conectado, com tecnologias que possibilitam o fluxo ilimitado de informações, traz uma necessidade de adaptação do ser humano a uma nova dinâmica relacionada ao conhecimento, que antes era mensurado em décadas e, atualmente, é considerado em anos e até meses. Um conceito aprendido hoje pode não ser mais uma verdade amanhã e ainda é preciso considerar o impacto causado pelas redes sociais enquanto fonte de aprendizagem informal e ambiente favorável para a rápida disseminação de informações incorretas. Diante da quantidade de informação que se encontra disponível na sociedade conectada, é fundamental investigar os métodos de interação do indivíduo com o ambiente digital e a forma com que se apropria do conhecimento (SIEMENS, 2004). Siemens (2004) ressalta que a tecnologia reestruturou o mundo e o modo de vida do indivíduo, afetando suas interações com o meio e com outras pessoas, sua comunicação e seu processo de aprendizagem. Enquanto as teorias do Behaviorismo, do Cognitivismo e do Construtivismo foram concebidas em um momento em que não havia o impacto das tecnologias, o Conectivismo surge em plena era da informação, apresentando um modelo de aprendizagem que já não pode mais ser tratado como uma atividade interna e individual. Trata-se de um momento histórico no qual o ambiente se encontra influenciando fortemente o ser humano, que, enquanto sistema autônomo, se vê diante da necessidade de construir novos ciclos e se adaptar a uma nova realidade. O conhecimento, então, não se encontra mais restrito a um processo individual de interação do ser com o meio, mas passa a ser distribuído dentro de uma rede de informação, com a integração de múltiplos indivíduos que trazem consigo suas próprias características, bagagens e pontos de vista em um fluxo caótico no qual a aprendizagem e o próprio conhecimento passam a repousar na diversidade de opiniões. No conectivismo, as teorias da auto-organização se encontram com as teorias da complexidade para discutir os desafios e as necessidades da sociedade moderna no que diz respeito à aprendizagem, à construção do indivíduo, às relações humanas, à imagem e ao que é mostrado em um ambiente que permite construir informações e personas muito distantes da realidade (SIEMENS, 2008). A TEORIA DA COMPLEXIDADE O contínuo processo de desenvolvimento da tecnologia e da ciência fez com que as relações humanas e as conexões entre diferentes lugares se tornassem cada vez mais complexas. Os problemas de um determinado país já não podem ser tratados como uma questão individual e exclusiva daquele território, ou das pessoas que habitam nele. A exemplo da pandemia de COVID-19, é notório que uma crise pode se espalhar rapidamente e afetar o mundo inteiro, antes mesmo que suas causas sejam identificadas (MORIN, 2003). Morin (2003) destaca que, ao mesmo tempo em que a humanidade experimenta um momento de amplo conectivismo, a sociedade conectada se movimenta em um processo de separação dos saberes e das pessoas. O conhecimento é separado da ética e a ração é separada da emoção, ao mesmo tempo em que a objetividade é isolada da subjetividade. Diferentes áreas das ciências também passaram por um processo de compartimentação, restritas a aos seus sistemas educacionais e levando o indivíduo a um processo de formação técnica e parcial, que também foi separado que questões relevantes como o contexto cultural e social, por exemplo. Esse fenômeno resulta em uma objetificação do ser humano, que passa a ocupar uma posição passiva e fatalista diante do meio que o cerca. Essa realidade pode ter sérias consequências ao impedir o sujeito de vislumbrar novas possibilidades de mundo e, portanto, de influenciar o meio e exercer seu papel de criação (FREIRE, 1996). Nesse contexto, a complexidade proposta por Morin (2007) ajuda a compreender o mundo a partir de um ponto de vista mais abrangente, visualizando as ligações entre as esferas política, social, econômica, ética, entre outras, e percebendo a rede que permeia os diferentes fenômenos que fazem parte do dia a dia da sociedade moderna. Essa forma complexa de ver o mundo também possibilita a construção de um diálogo mais eficiente com ele e resultando em uma melhor interação entre o indivíduo e o meio. É preciso ter em mente que qualquer contexto, seja ele um ambiente físico como uma escola ou um ambiente virtual como uma rede social, deve ser compreendido como um citem aberto e capaz de estabelecer um diálogo com os sistemas que são externos a ele. Através do princípio sistêmico, é possível conectar um sistema a um universo mais abrangente, do qual ele faz parte. Assim, um sistema aberto só poderia ser efetivamente compreendido ao ser visualizado no âmbito de um panorama maior. Um ser vivo, composto por células que se encontram em um constante ciclo de mutação, morte e regeneração, mantendo a ordem desse sistema. No entanto, ao mesmo tempo, esse organismo está aberto para relações com o mundo externo e essa abertura é necessária para manutenção de sua sobrevivência. Deste modo, a relação entre um sistema e seu ambiente poder ser vista como antagônica e complementar ao mesmo tempo. Deste modo, para que um sistema complexo exista, é necessário estabelecer um diálogo constante com o meio no qual se encontra inserido (MORIN, 2003b, 2007). O grande desafio da complexidade na sociedade conectada moderna, está justamente em promover a integração dos diferentes saberes, das variadas formas de ciências e dos inúmeros campos do conhecimento. Ideias e teorias não podem ser consideradas de forma independente do seu ambiente e contexto. Questões culturais, por exemplo, podem fazer significações específicas e até mesmo antagônicas ao considerar diferentes culturas. Separar as ideias dos seus contextos leva a um processo de degradação da sua complexidade, resultando em uma simplificação que inutiliza a teoria e pode chegar ao ponto de fomentar um estado de ignorância (MORIN, 2003ª, 2005a). Trata-se de um grande desafio, também, porque a sociedade moderna se vê invariavelmente imersa na busca pelo lucro e regida pela lógica da competição que leva o indivíduo a considerar qualquer outro que seja diferente dele como um rival. Ao mesmo tempo em que o individualismo, em doses certas, é saudável, posto que desperta a responsabilidade pessoal do ser humano pela sua própria vida, quando amplamente estimulado tende a favorecer o egocentrismo, causando dano aos conceitos de comunidade. A busca pelo bem-estar individual como maior e mais importante objetivo, elimina o senso de coletividade e, em um ambiente altamente conectado, pode ser considerado um precursor do caos social (MORIN, 2005b). A APRENDIZAGEM UBÍQUA COMO PROPOSTA DE RESSIGNIFICAÇÃO Levando em consideração que a tecnologia continua em um constante processo de inovação e que as ferramentas tecnológicas devem ocupar um espaço cada vez mais expressivo na vida das pessoas, é fundamental e urgente discutir as melhores práticas para a construção do conhecimento nas novas gerações. É imprescindível que as pessoas desenvolvam a habilidade de agir de forma interativa e colaborativa no ambiente online, identificando os conceitos e as teorias que lhes sejam significativas e contribuindo para o crescimento da sociedade como um todo (SCHNITMAN, 2011). É preciso trabalhar no âmbito educacional para que as pessoas possam construir um novo olhar sobre o conhecimento e sobre as próprias relações humanas, trazendo à tona todos os malefícios que o comportamento individualista traz para a sociedade e alertando sobre como as redes sociais, por exemplo, podem servir como potencializadoras desse comportamento. É através de novas práticas na educação, onde estudantes tenham a oportunidade de se apropriar do ambiente virtual e compreendam as melhores formas de interagir com ele, que será possível seguir na direção contrária ao caos (MEDEIROS, 2000). Uma das mais relevantes propostas para esse fim na atualidade á a aprendizagem ubíqua, que se caracteriza principalmente por um meio de socialização que parte do ambiente midiático, compreendido como uma nova esfera pública e mediados pelos instrumentos de produção e compartilhamento de uma cultura que entra em processo de circularidade. Nesse contexto, é possível encontrar novamente o conceito de que o ambiente, no caso das mídias enquanto produtos e produto de cultura, interage de forma complementar com o indivíduo, que se encontra imerso na cultura dessas mídias a partir de uma perspectiva conectivista que passa, ainda, pela complexidade para ser estabelecida de forma eficiente. Santaella (2013) explica que a base da aprendizagem ubíqua, no ciberespaço, está na constituição das redes digitais em possibilidades de comunicação com liberdade para a circulação de mensagens, sem a mediação de um centro (que pode ser compreendido como a figura de um professor), disseminando o conhecimento de forma transversal, aleatória e dissociativa. Os indivíduos que são submetidos à aprendizagem ubíqua deixam de receber informações homogêneas, separadas, estruturadas em um sistema tradicional, passando a interagir com um fluxo complexo, caótico, multidirecional, conectado e capaz de ser, ao mesmo tempo, coletivo e personalizado. Para Peters (2011) esse modelo valoriza o processo colaborativo, estimulando o indivíduo a compartilhar e edificar a construção do conhecimento de forma conjunta. O educador, nesse novo cenário, ocupa um papel de mediação da rede de saberes, zelando para que a complexidade e a conectividade sejam mantidas e para que a interação dos alunos com o meio se dê de modo a favorecer seu desenvolvimento pessoal e coletivo. Toda a discussão centrada na formação do indivíduo e em sua relação com o conhecimento passa pelas práticas educacionais e pelo papel do docente enquanto mediador da apropriação desse conhecimento. Os nascidos na era da tecnologia, expostos a uma quantidade imensurável de estímulos e informações, precisam de um direcionamento para que não se percam no processo e não corram o risco de cair nas mencionadas tendências de compartimentação e isolamento. Bom seria, na verdade, se a maior parte da população tivesse a oportunidade de ressignificar seu olhar em relação à interação com o meio e com outras pessoas, especialmente no ambiente online. CONSIDERAÇÕES FINAIS É inegável que o início da década de 2020 tem se mostrado altamente desafiador para a humanidade. Nunca na história as pessoas estiveram tão conectadas e, ainda assim, é possível observar um expressivo movimento de individualização e busca do bem individual. O conhecimento foi compartimentado e as relações entre as diversas áreas da ciência foram dificultadas, mesmo com tantas ferramentas permitindo interações em tempo real de pessoas em diferentes partes do mundo. Esse processo de segmentação tem levado à geração de grupos fechados em crenças e teorias absolutamente sem sentido. Movimentos anti-vacina e discussões sobre a possibilidade de a Terra ser plana mostram como a sociedade caminha em direção a um estado de caos e ignorância favorecido pela fácil conexão de pessoas com o mesmo pensamento, mas fechadas para a interação com o meio. É necessário e urgente trabalhar para que a educação seja ressignificada. Não apenas a geração mais jovem, mas as pessoas de modo geral precisam aprender a lidar com a tecnologia e com o ambiente digital de forma saudável, favorecendo o seu desenvolvimento ao invés de alimentar suas fantasias egoístas e seus pensamentos fanáticos. Se não houver uma intervenção nesse cenário, é possível que, em pouco tempo, haja uma grande quantidade de indivíduos incapazes de discernir entre o que é real e o que faz parte do ambiente virtual. As redes sociais, ao mesmo tempo em que permitem uma ampla interação, se tornam campo para a construção de personas falsas e disseminação de informações incorretas. Diante das teorias analisadas e dos conceitos expostos, entende-se que existem ferramentas e possibilidades de interferir nesse processo de simplificação degradante do conhecimento, mas é preciso analisar, verificar, viabilizar e trabalhar para que esses conceitos não fiquem presos ao ambiente acadêmico, mas sejam aplicados no dia a dia das pessoas, impactando positivamente a sociedade e contribuindo para o seu desenvolvimento. REFERÊNCIAS FILATRO, Andrea. Design instrucional contextualizado: educação e tecnologia. São Paulo: Editora SENAC, São Paulo, 2004. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. 33. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. De máquinas e seres vivos: autopoiese - a organização do vivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. MEDEIROS, Margarida. Fotografia e narcisismo: o autorretrato contemporâneo. Lisboa, Portugal: Assírio & Alvim, 2000. MOREIRA, Marco Antonio. A epistemologia de Maturana. 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Disponível em: https://jotamac.typepad.com/jotamacs_weblog/files/Connectivism.pdf Acesso em 01/06/2021. SIEMENS, George.¿Qué tiene de original el conectivismo? 2008. Disponível em: http://humanismoyconectividad.wordpress.com/2009/01/14/conectivismo-siemens/; Acesso em 01/07/2021 VARELA, Francisco J.; THOMPSON, Evan; ROSCH, Eleanor. The embodied mind: cognitive science and human experience. Cambridge: MIT Press, 1991. VARELA, Francisco. Conhecer as ciências cognitivas: tendências e perspectivas. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.

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